sábado, 9 de abril de 2011
Só se lê bem com o coração!
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Irmãos Karamázov
Um dos melhores livros que já li.
Bom demais para os afazeres do dia-a-dia me deixarem comentar o tanto que gostaria. Afinal, qual a utilidade de pensarmos questões filosóficas universais se ainda não tiramos o pó da casa?
“Não está pedindo dinheiro, mas seja como for não vai receber um tostão de mim. Eu, meu querido Alieksiêi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o máximo que puder no mundo, saibam vocês disto, e por isso preciso de cada copeque, e quanto mais eu viver tanto mais esse copeque me será necessário. Por enquanto ainda sou um homem, apesar de tudo, tenho apenas cinquenta e cinco anos, mas ainda quero permanecer uns vinte no rol dos homens, porque vou envelhecer, ficar um trapo e elas não vão querer vir à minha casa de boa vontade, e é por isso que vou precisar de um dinheirinho. É por isso que venho juntando cada vez mais e mais só para mim, meu amável Alieksiêi Fiódorovitch, que fiquem vocês sabendo, porque quero viver até o fim em minha sujeira, fiquem vocês sabendo. Na imundice é que é mais doce: todos falam mal dela, mas nela todos vivem, só que às escondidas, enquanto eu sou transparente. Pois foi por essa minha simplicidade que todos os sujos investiram contra mim.
Já para o teu paraíso, Alieksiêi Fiódorovitch, não quero ir, fica tu sabendo, e para um homem direito é até indecente ir para o teu paraíso, se é que ele existe mesmo. A meu ver, a pessoa dorme e não acorda mais, descobre que não existe nada; lembrem-se de mim se quiserem, e se não quiserem que o diabo que os carregue. Eis minha filosofia."
Fiódor Pávlovitch Karamázov – Abas Os Irmãos Karamázov
Trechos do livro:
Pág. 414: A fraternidade não chegará antes que o senhor se torne irmão de fato de toda e qualquer pessoa.
Pg. 426: Eles têm a ciência, e na ciência só aquilo que está sujeito aos sentidos. Já o mundo do espírito, a metade superior do ser humano, foi rejeitado inteiramente, expulso com certo triunfo, até com ódio.
Pg. 507: "Ele era justamente daquele tipo de ciumento que, quando longe da mulher amada, inventava imediatamente sabe Deus que horrores a respeito do que pode acontecer com ela, que ela estaria "traindo" por lá, mas, ao correr de volta para ela, abalado, arrasado, já irreversivelmente certo de que, apesar de tudo, ela arranjou tempo para traí-lo, ao primeiro olhar para o rosto dela, para o rosto sorridente, alegre e carinhoso dessa mulher - imediatamente cria alma nova, imediatamente afasta toda e qualquer suspeita e, tomado de uma vergonha alegre, censura a si mesmo pelo ciúme."
Pg. 663: "-Não, não - é como se Mítia continuasse a não entender -, dize-me: por que estão aí em pé essas mães vítimas de incêndio, por que as pessoas são pobres, por que o bebê é pobre, por que a estepe é nua, por que eles não se abraçam não se beijam, por que não cantam canções alegres, por que a desgraça negra as deixou tão escuras, por que não alimentam o bebê?"
Pg. 684: "-Uns tratantes.
-Quem é tratante?
- Os médicos, e toda a canalha médica; estou falando em geral e, é claro, também em particular. Eu nego a medicina. É uma instituição inútil. Aliáş, venho investigando tudo isso."
Pg. 685: "-Gosto de observar o realismo, Smúrov - falou Kólia subitamente. - Já notaste como os cachorros se cheiram quando se encontram? Nisso se movem por uma lei geral de sua natureza.
- Sei, alguma lei ridícula.
- Ah, não, ridícula não, nisto não tens razão. Na natureza não existe nada ridículo, por mais que pareça ao homem, movido por seus preconceitos. Se os cães fossem capazes de refletir e criticar, nas relações sociais com os homens, seus amos, certamente encontrariam um número igual - se não bem maior - de coisas que achariam ridículas - se não bem maior; repito isto porque tenho a firme convicção de que nós fazemos muito mais tolices."
Pg. 699: "-Qual... Você não iria brincar de cavalinho!
- Você julga a coisa assim - Aliocha deu um sorriso -, mas são adultos, por exemplo, que vão ao teatro, e no teatro também se representam aventuras de personagens de toda espécie, às vezes também incluindo bandoleiros e guerra - pois bem, por acaso não é a mesma coisa, claro que em seu gênero? Mas para os jovens brincar de guerra durante o recreio ou de bandoleiros também é arte nascente, necessidade nascente de arte na alma juvenil, e às vezes essas brincadeiras são compostas até com mais coerência do que as representações no teatro, com a única diferença de que as pessoas vão ao teatro assistir os atores, ao passo que, neste caso, os jovens são os próprios atores. Nada mais natural."
Pg. 755: "Diz: por que viver de fato? É melhor sonhar. Pode-se sonhar a coisa mais alegre, mas viver é um tédio."
Pg. 765: "Só que, pergunto, como é que fica o homem depois disso? Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?" "E tu não sabias?" -diz ele. Ele ri. "Um homem inteligente pode tudo, diz ele, o homem inteligente sabe usar de astúcia, já tu, diz ele, mataste, meteste os pés pelas mãos e agora estás apodrecendo na cadeia!"
Pg. 828: "Escuta, nos sonhos, e sobretudo nos pesadelos, quando há desarranjos intestinais ou alguma coisa assim, às vezes o homem vê coisas tão artísticas, uma realidade tão complexa e efetiva, acontecimentos ou até um mundo inteiro de acontecimentos, amarrados por tal intriga, com tais detalhes inesperados, desde manifestações superiores até o último botão do peitilho, que te juro que nem Lev Tolstói conseguiria criá-lo, e no entanto quem tem esses sonhos às vezes não tem nada de escritor, mas são as pessoas mais comuns; funcionários, folhetinistas, padres... Existe até um objetivo relacionado com isso: certa vez um ministro até me confessou que suas melhores ideias lhe ocorriam enquanto ele dormia. Pois é o mesmo que está acontecendo agora. Embora eu até seja tua alucinação, contudo, como num pesadelo, digo coisas originais que até hoje não te ocorreram, de modo que já não repito, em absoluto, os teus pensamentos, e no entanto sou apenas o teu pesadelo e nada mais."
Pg. 830: "Fui a todos os médicos: fazem excelente diagnóstico, explicam toda a doença na ponta dos dedos, mas curar que é bom, ninguém sabe. Apareceu um estudante cheio de entusiasmo: se o senhor vier mesmo a morrer, diz ele, saberá perfeitamente do que morreu. E sempre essa mania de nos encaminhar a especialistas, como quem diz: nós apenas diagnosticamos, agora vá consultar o especialista fulano de tal, que ele o curará. (...) Uma vez lá, ele te examina e diz: 'só posso curar a narina direita, porque não curo narinas esquerdas, não é minha especialidade, mas vá a Viena, lá um especialista específico curará sua narina esquerda".
Pg. 833: "-Ora, estás sempre pensando na nossa Terra de hoje! Só que a própria Terra de hoje talvez já tenha se repetido um bilhão de vezes; renasceu, congelou, rachou, fez-se em pedaços, desintegrou-se em seus componentes iniciais, voltou à água, que ficou sobre a terra, depois voltaram os cometas, voltou o sol, outra vez a Terra se formou do sol - ora, esse desenvolvimento possivelmente vem se repetindo infinitamente, e tudo sob o mesmo aspecto até os mínimos detalhes. O mais indecente dos tédios."
Abaixo trecho curiosamente semelhante da ideia exposta acima, porém mais elaborado:
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira! ". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"
Friedrich Nietzsche; (A Gaia Ciência: Aforismo 341)
Pág. 840: Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito.
Pág. 937: "(...) A psicologia, senhores, embora seja uma coisa profunda, ainda assim parece uma faca de dois gumes(...)."
Pág. 940: "A psicologia convida ao romance até os homens mais sérios, e isso de modo inteiramente involuntário. Estou falando de excesso de psicologia, senhores jurados, de certo abuso dela."
Adeus passado
"Adeus todo o passado, rompo para sempre os meus laços com o mundo do passado, e que dele não me chegue nem notícia, nem eco; para um novo mundo, para novos lugares, e sem olhar para trás!" contudo, em vez do êxtase sua alma viu-se de repente invadida por tais trevas, seu coração foi pungido por uma aflição tal como ele jamais experimentara em toda a sua vida. Passou a noite inteira refletindo; o trem voava, e só ao raiar do dia, já chegando a Moscou, ele pareceu recobrar-se de repente.
(Irmãos Karamázov - Pág. 386)
segunda-feira, 10 de maio de 2010
O Castelo - Kafka
É difícil explicar o porque de Kafka. Livros relativamente pouco consagrados, de leitura confusa e estranha não são atrativos comuns. Em detrimento disto, ou talvez mesmo por isso, senti-me compelido a entregar-me ao universo kafkiano – mais uma vez.
Além de alguns mini-contos, conheci previamente O Processo e já estava familiarizado com o estilo peculiaríssimo de Kafka. O Castelo me lembrou em muito O Processo. A sensação de confusão experimentada durante a leitura é indescritível. À princípio a lógica incomum da leitura d'O Processo me fez pensar que talvez a lógica de Kafka fosse fugir completamente à lógica – mesmo de sua própria. Porém, talvez seja escrever sempre situações surpreendentes e inusitadas.
Uma das definições que mais me agradam sobre Kafka é a que diz serem suas obras 'confusas como pesadelos'. Agrada-me justamente porque é exatamente a sensação que experimento durante sua leitura. A falta de conexão entre os fatos, a lógica falha e descompromissada -preguiçosa quase-, personagens que têm objetivos dúbios e se entregam avidamente à eles sem questionamento me fazem pensar sobre a tal da Vida Real.
Quantos de nós sabem dizer exatamente o que querem? Desses poucos, quantos têm motivos realmente plausíveis para se dedicar ao que acreditar? Há realmente algo em que valha a pena acreditar?
“Ler Kafka é mais do que colocar suas convicções em xeque. É por em dúvida as próprias dúvidas.”
“O senhor interpreta tudo erradamente, até o silêncio.”
(...) pois com o trabalho que faz — fumar cachimbo, ficar escutando os fregueses, depois esvaziar o cachimbo e de vez em quando ir buscar uma cerveja —, com esse tipo de trabalho não se envelhece.
Capítulo 6
Segunda conversa com a dona do albergue Diante do albergue o dono da casa o esperava. Sem ser interpelado ele não teria ousado falar, por isso K. perguntou o que ele queria. — Já tem outro lugar para ficar? — perguntou de volta o dono do albergue, olhando para o chão. — Você está fazendo a pergunta por conta de sua mulher — disse K. — Depende dela a esse ponto? — Não — disse o dono do albergue. — Não estou perguntando em nome dela. Mas ela está muito agitada e infeliz por sua causa, não pode trabalhar, fica deitada na cama, suspirando e se lamentando sem parar. — Devo ir falar com ela? — perguntou K. — Peço por favor que vá — disse o dono do albergue. — Eu já quis ir buscá-lo na casa do prefeito, fiquei escutando à porta, mas como estavam conversando não quis perturbar, além disso eu estava preocupado com minha mulher, corri de volta para cá. ela porém não me deixou entrar no quarto e assim não me restou outra coisa senão esperá-lo. — Então vamos rápido — disse K. — Vou tranqüilizá-la logo. — Espero que consiga — disse o dono do albergue. Atravessaram a cozinha clara, onde três ou quatro criadas, cada uma distante da outra, cuidando dos seus respectivos trabalhos, ficaram literalmente paralisadas à vista de K. Já da cozinha se ouviam os suspiros da dona do albergue. Ela estava deitada num cubículo sem janela separado da cozinha por um leve tabique de madeira. Só havia espaço para um grande leito de casal e um armário. A cama estava colocada de tal modo que dela se podia ver toda a cozinha e vigiar o trabalho. Da cozinha, porém, não se podia ver quase nada do quartinho, lá estava completamente escuro, só a coberta branca e vermelha cintilava um pouco. Quando se havia entrado e os olhos se habituado à escuridão é que se podiam distinguir os detalhes. — Finalmente o senhor veio — disse a dona do albergue com voz fraca. Ela estava deitada de costas, era evidente que tinha dificuldade para respirar, havia atirado a coberta de plumas para os pés da cama. Parecia muito mais jovem no leito do que vestida, mas uma touquinha de dormir de renda delicada, que tinha na cabeça, embora fosse pequena demais e oscilasse sobre os cabelos, fazia a decadência do seu rosto causar pena. — Como é que poderia ter vindo? — disse K. com brandura. — A senhora não mandou me chamar. — O senhor não deveria ter-me feito esperar tanto — disse a dona do albergue com a obstinação dos doentes. — Sente-se — disse apontando para a beira da cama. — Os outros, porém, vão embora. Além dos ajudantes haviam entrado no quarto, nesse meio tempo, também as criadas. — Devo também ir embora, Gardena? — disse o dono do albergue. K. ouvia pela primeira vez o nome da mulher. — Naturalmente — disse ela devagar. Como se estivesse entretida com outros pensamentos, acrescentou: — Por que justamente você deveria ficar? Quando todos haviam se retirado para a cozinha — dessa vez os ajudantes também seguiram, embora estivessem atrás de uma criada —, Gardena teve presença de espírito suficiente para perceber que se podia escutar da cozinha tudo o que ali se falava, pois o tabique não tinha porta. Ordenou por isso que todos deixassem também a cozinha, o que se fez imediatamente. — Por favor, senhor agrimensor — disse então Gardena —, no armário bem em frente está pendurado um xale, pegue-o para mim, quero me cobrir com ele, não suporto o cobertor de penas, respiro com tanta dificuldade. E quando K. lhe trouxe o xale ela disse: — Como o senhor vê, é um belo xale, não é verdade? Para K. parecia ser uma peça comum de lã, ele a apalpou mais uma vez por gentileza, mas não disse nada. — Sim, é um belo xale — disse Gardena cobrindo-se com ele. Ela agora estava deitada ali tranqüilamente, parecia que toda dor a tinha deixado, ocorreu-lhe até que seus cabelos haviam ficado em desalinho pelo fato de estar deitada; sentou-se por um instante na cama e arrumou um pouco o penteado em volta da pequena touca. Sua cabeleira era abundante. K. ficou impaciente e disse: — A senhora mandou perguntar se eu já tinha outro lugar para morar. — Mandei perguntar? — disse a dona do albergue. — Não, é um engano. — Seu marido acaba de me perguntar isso. — Acredito — disse a dona do albergue. — É uma rixa entre nós. Quando eu não queria o senhor aqui, ele o reteve; agora que estou feliz com o fato de o senhor estar morando aqui, ele o manda embora. Ele sempre faz coisas assim. — A senhora então — disse K. — mudou tanto sua opinião a meu respeito? Em uma, duas horas? — Não mudei de opinião — disse a dona do albergue outra vez com a voz fraca. — Estenda-me a sua mão. Assim. E agora me prometa ser completamente honesto, eu também vou fazer o mesmo com o senhor. — Está bem — disse K. — Mas quem vai começar? — Eu — disse a dona do albergue, sem deixar a impressão de que desse modo quisesse ser gentil com K., mas de que estava ansiosa por ser a primeira a falar. Tirou uma fotografia de sob o travesseiro e estendeu a K. — Olhe esta fotografia — disse num tom de súplica. Para enxergar melhor, K. deu um passo para dentro da cozinha, mas lá também não era fácil reconhecer alguma coisa na foto, pois ela estava empalidecida pelo tempo, rachada em vários lugares, amassada e cheia de manchas. — Ela não está em muito bom estado — disse K. — Infelizmente, infelizmente — disse a dona do albergue. Quando alguém a leva sempre consigo, de cá para lá, durante anos, ela fica assim. Mas se o senhor olhar direito, vai reconhecer tudo. com toda a certeza. Posso, aliás, ajudá-lo: diga-me o que está vendo, alegra-me muito ouvir falar da fotografia. E então, o que vê? — Um jovem — disse K. — Certo — disse a dona do albergue. — E o que ele está fazendo? — Creio que está deitado numa tábua, esticando o corpo e bocejando. A dona do albergue riu. — Completamente errado — disse ela. — Mas aqui está a tábua e aqui está ele deitado — insistiu K. no seu ponto de vista. — Olhe com mais atenção — disse a dona do albergue irritada. — Ele está realmente deitado? — Não — disse então K. — Ele não está deitado, está suspenso no ar e agora eu vejo que não é uma tábua, mas provavelmente um fio, e o jovem está dando um salto. — Eis aí — disse satisfeita a dona do albergue. — Ele está saltando, é assim que se exercitam os mensageiros oficiais, eu sabia que o senhor iria perceber. Vê também o rosto dele? — Do rosto só vejo muito pouco — disse K. — É evidente que está fazendo esforço, a boca está aberta, os olhos apertados e o cabelo esvoaça. — Muito bem — disse a dona do albergue com aprovação. — Mais que isso alguém que não viu pessoalmente não consegue perceber. Mas era um bonito jovem, eu só o vi fugazmente uma vez e nunca vou esquecê-lo. — Quem era ele, então? — perguntou K. — Era o mensageiro pelo qual Klamm me chamou pela primeira vez — disse a dona do albergue. K. não pôde escutar direito, sua atenção tinha sido desviada por um retinir de vidro. Descobriu logo a causa da perturbação. Os ajudantes estavam no pátio de fora, pulando na neve ora com um pé, ora com outro. Agiam como se estivessem felizes por ver K. outra vez, de felicidade apontavam um para o outro e davam contínuas batidinhas na vidraça da cozinha. A um movimento ameaçador de K. deixaram imediatamente de fazer isso, procurando empurrar um ao outro para trás, mas logo um escapulia do outro e lá estavam os dois outra vez junto à janela. K. foi correndo para dentro do tabique, onde os ajudantes não podiam vê-lo de fora, do mesmo modo que ele não podia vê-los. Mas o tinir da vidraça, leve e suplicante, continuou a persegui-lo ali também por muito tempo. — Outra vez os ajudantes — disse ele à dona do albergue para se desculpar, apontando para fora. Ela porém não prestou atenção, tirou dele a fotografia, olhou-a, alisou-a e colocou-a de novo sob o travesseiro. Seus movimentos haviam se tornado mais vagarosos, não por cansaço, mas por causa do peso da recordação. Ela quisera contar a K. e o havia esquecido por causa da história. Ficou brincando com as franjas do xale. Só um instante depois é que levantou o olhar, passou a mão sobre os olhos e disse: — Este xale também é de Klamm. A touca também. A fotografia, o xale e a touca são as três lembranças que tenho dele. Não sou tão jovem como Frieda, não sou tão ambiciosa quanto ela, nem tão sensível, ela é muito sensível, em suma, eu sei como me adaptar à vida, mas uma coisa preciso admitir: sem estas três coisas não teria suportado ficar aqui tanto tempo, com toda probabilidade não teria suportado um dia aqui. Talvez estas três recordações pareçam pouca coisa ao senhor, mas veja: Frieda, que conviveu com Klamm tanto tempo, não possui absolutamente nenhuma lembrança, eu perguntei a ela, ela é entusiasmada demais e além disso exigente demais; eu, pelo contrário, que estive com Klamm só três vezes — depois disso ele não me mandou mais chamar, não sei por quê —. trouxe comigo estas recordações, sem dúvida pressentindo que meu tempo seria breve. Certamente é preciso se preocupar com isso, espontaneamente Klamm não dá nada, mas quando a pessoa vê ali alguma coisa adequada, pode obtê-la pedindo. K. sentiu-se desconfortável diante dessas histórias, por mais que elas também dissessem respeito a ele. — Há quanto tempo foi tudo isso? — perguntou suspirando. — Há mais de vinte anos — disse a dona do albergue. — Bem mais de vinte anos. — Esse é portanto o tempo que se mantém a fidelidade a Klamm — disse K. — Mas a senhora está consciente também de que com essas confissões me causa graves preocupações quando penso no meu futuro casamento? A dona do albergue achou incorreto que K. quisesse se intrometer nos seus assuntos pessoais e olhou-o de lado, irada. — Não fique tão zangada, minha senhora — disse K. — Não estou dizendo uma palavra contra Klamm, mas por força dos acontecimentos entrei em determinadas relações com Klamm; isso nem o maior admirador de Klamm pode negar. Pois bem. Em virtude disso, a menção a Klamm sempre me força a pensar em mim, não há o que fazer. Aliás, senhora — e aqui K. agarrou sua mão hesitante —, pense em como nossa última conversa acabou mal e no fato de que desta vez queremos nos separar em paz. — O senhor tem razão — disse a dona do albergue inclinando a cabeça. — Mas por favor me poupe. Não sou mais suscetível que os outros, pelo contrário, cada qual tem pontos vulneráveis e eu só tenho este. — Infelizmente ele também é ao mesmo tempo o meu — disse K. — Mas certamente vou me dominar; explique-me no entanto, minha senhora, como devo suportar no casamento essa horrível fidelidade a Klamm, uma vez que nisso Frieda também é parecida com a senhora. — Horrível fidelidade? — repetiu com rancor a dona do albergue. — Então isso é fidelidade? Sou fiel ao meu marido, mas em relação a Klamm o que sou? Klamm tornou-me uma vez sua amante, será que posso um dia perder esse nível? E como o senhor deve suportar isso com Frieda? Ah, senhor agrimensor, quem é o senhor para ousar perguntar isso? — Senhora dona do albergue! — disse K. em tom de advertência. — Eu sei — disse a dona do albergue cedendo. — Mas nem meu marido fez essas perguntas. Não sei quem deve ser considerada mais infeliz, eu naquela época ou Frieda agora. Frieda, que deixou voluntariamente Klamm. ou eu, que ele não mandou mais chamar. Talvez seja Frieda, embora ela ainda não pareça sabê-lo em toda a sua dimensão. Mas outrora meus pensamentos eram dominados exclusivamente por minha desgraça, pois eu precisava me perguntar continuamente e no fundo ainda hoje não paro de perguntar o seguinte: por que isso aconteceu? Klamm mandou me chamar três vezes e na quarta não me chamou mais. na quarta vez nunca, nunca mais! O que então me ocupava além disso? Sobre o que então eu podia conversar com o meu marido, com quem logo depois me casei? Durante o dia não tínhamos tempo, assumimos este albergue num estado miserável e tínhamos de colocá-lo em pé. mas e à noite? Anos e anos nossas conversas noturnas só giravam sobre Klamm e as razões que o levaram a mudar de intenção. E quando meu marido adormecia durante essas conversas, eu o acordava e continuávamos falando disso. — Agora, se me permite — disse K. —. vou fazer-lhe uma pergunta muito grosseira. A dona do albergue silenciou. — A senhora portanto não me autoriza a fazê-la — disse K. — Isso também me basta. — Certamente — disse a dona do albergue. — Também isso lhe basta e sobretudo isso. O senhor interpreta tudo erradamente, até o silêncio. Mas não pode agir de outro modo. Permito que me faça a pergunta. — Se interpreto tudo errado — disse K. —, talvez faça o mesmo até com a minha pergunta, talvez ela não seja tão grosseira. Eu queria apenas saber como a senhora conheceu o seu marido e como chegaram à posse deste albergue. A dona do albergue franziu a testa mas disse com serenidade: — Essa história é simples. Meu pai era ferreiro, e Hans, meu atual marido, cavalariço de um grande proprietário rural, vinha ver meu pai com freqüência. Isso foi depois do último encontro com Klamm, eu estava muito infeliz e na verdade não devia estar, pois tudo havia evoluído corretamente e o fato de não poder mais me encontrar com Klamm tinha sido uma decisão de Klamm, portanto era correta, apenas os motivos eram obscuros, eu podia pesquisá-los, mas não devia ter ficado infeliz, mas a verdade é que estava, não conseguia trabalhar e ficava o dia todo sentada no nosso jardinzinho da frente. Foi ali que Hans me viu, sentou-se algumas vezes ao meu lado, com ele eu não me queixava; mas ele sabia do que se tratava e porque é um jovem bondoso acontecia que chorava comigo. Quando o proprietário do albergue naquela ocasião, que havia perdido a mulher e por isso obrigado a renunciar à atividade — além do mais já era um homem idoso —, passou pelo nosso jardinzinho e nos viu ali sentados, parou e, sem mais, nos ofereceu o albergue para que o arrendássemos; não queria nenhuma antecipação em dinheiro porque confiava em nós e pediu um preço bem baixo pelo arrendamento. Eu só não queria ser um peso para o meu pai; o resto me era indiferente e assim, pensando no albergue e no novo trabalho, que talvez trouxesse algum esquecimento, concedi minha mão a Hans. Essa é a história. Houve um momento de silêncio, depois K. disse: — O modo de agir do dono do albergue naquela época foi um belo gesto, apesar de imprudente, ou ele tinha motivos particulares para confiar nos dois? — Ele conhecia Hans — disse a dona do albergue. — Era tio de Hans. — Com certeza então a família de Hans tinha o maior interesse na união dele com a senhora — disse K. — Talvez — disse a dona do albergue. — Não sei, não me preocupei com isso. — Mas deve ter sido assim, sem dúvida — disse K. — Se a família estava disposta a fazer esse sacrifício e entregar o albergue nas suas mãos. simplesmente sem garantia. — Não foi imprudente, como se viu mais tarde — disse a dona do albergue. — Lancei-me ao trabalho, eu era forte, filha do ferreiro, não precisava de criada ou criado, estava em toda parte, na sala do albergue, na cozinha, no estábulo, no pátio, cozinhava tão bem que tirava clientes até da Hospedaria dos Senhores; o senhor não estava no albergue na hora do almoço, não conhece nossos clientes do almoço, antes eram mais numerosos ainda, depois é que muitos foram se dispersando. E o resultado foi que não só pudemos pagar em dia o arrendamento, mas também compramos tudo depois de alguns anos e o albergue hoje está quase isento de dívidas. O outro resultado certamente foi que me destruí com isso, fiquei doente do coração e agora sou uma mulher velha. Talvez o senhor creia que sou muito mais velha do que Hans, mas na realidade ele é apenas dois ou três anos mais novo e com certeza nunca vai envelhecer, pois com o trabalho que faz — fumar cachimbo, ficar escutando os fregueses, depois esvaziar o cachimbo e de vez em quando ir buscar uma cerveja —, com esse tipo de trabalho não se envelhece. — O que a senhora fez é admirável — disse K. — Quanto a isso não há dúvida, mas estávamos falando do tempo anterior ao seu casamento e naquela época deve ter sido estranho que a família de Hans pressionasse no sentido do casamento, com sacrifício financeiro ou pelo menos assumindo um risco tão grande, como era o arrendamento do albergue, não tendo no caso nenhuma outra esperança a não ser a força de trabalho da senhora — que ainda não se conhecia — e a força de trabalho de Hans, cuja inexistência já se deveria conhecer. — Muito bem — disse a dona do albergue cansada. — Sei aonde quer chegar e também o quanto se engana. Em tudo isso não havia o menor rastro de Klamm. Por que ele deveria ter se preocupado comigo, ou melhor: como poderia ter de alguma forma se preocupado? Ele já não sabia mais nada de mim. O fato de não ter mais mandado me chamar era um sinal de que havia me esquecido. Quem ele não manda mais chamar é quem ele esquece por completo. Não quis falar sobre isso na frente de Frieda. Mas não é apenas esquecimento, é mais do que isso. Aquele de quem se esqueceu pode-se conhecer de novo. Com Klamm isso não é possível. Quem ele não manda mais chamar não só foi esquecido completamente em relação ao passado, mas também para o futuro todo — literalmente. Quando me esforço muito posso penetrar nos seus pensamentos, senhor agrimensor, pensamentos que aqui não fazem sentido, mas que talvez sejam válidos no país estrangeiro do qual o senhor vem. Possivelmente o senhor se atreva à loucura de pensar que Klamm me deu Hans como marido para que eu não encontrasse muito obstáculo para ir até ele caso no futuro me mandasse chamar. Bem, mais longe que isso nem a loucura pode ir. Mas que marido poderia me impedir de correr para Klamm se Klamm me fizesse um sinal? Absurdo, completo absurdo, quando alguém brinca com um absurdo assim, confunde a si mesmo. — Não — disse K. — Não vamos nos confundir, eu ainda não tinha ido tão longe nos meus pensamentos como a senhora supõe, embora, para dizer a verdade, estivesse a caminho. No momento, porém, me surpreendia apenas com o fato de que os parentes esperassem tanto do casamento e de que essas esperanças efetivamente se realizassem, se bem que à custa do seu coração e da sua saúde. A idéia de uma ligação entre esses fatos e Klamm certamente se impunha aos meus pensamentos, mas não — ou ainda não — na forma grosseira como a senhora apresentou, evidentemente com o único propósito de me descompor mais uma vez porque isso lhe dá prazer. Tenha então esse prazer! Mas o que eu estava pensando era o seguinte: primeiro de tudo, Klamm é claramente a causa do casamento. Sem Klamm a senhora não teria sido infeliz, não teria ficado sentada sem fazer nada no jardinzinho da frente, sem Klamm não teria visto Hans ali, sem a tristeza da senhora o tímido Hans não teria nunca ousado lhe falar, sem Klamm nunca teria se encontrado com Hans nas lágrimas, sem Klamm o velho e bom tio dono do albergue nunca teria visto Hans e a senhora tranqüilamente sentados juntos ali, sem Klamm a senhora não teria ficado indiferente diante da vida e portanto não teria se casado com Hans. Bem, eu devia achar que em tudo isso já havia Klamm suficiente, na minha opinião. Mas ainda continua. Se a senhora não tivesse procurado se esquecer, certamente não teria trabalhado com tamanha falta de consideração por si mesma, nem melhorado tanto o albergue. Aqui também entra Klamm. Mas, à parte isso, Klamm também é a causa da sua doença, pois o coração da senhora já estava esgotado antes do casamento em virtude da paixão infeliz. Resta só perguntar o que atraía tanto os parentes de Hans nesse casamento. A senhora mesmo mencionou uma vez que ser amante de Klamm significa uma elevação de nível que não se perde; logo, pode ser que isso os tenha atraído. Além do que, acredito, a esperança de que a boa estrela que a conduziu a Klamm — supondo que era uma boa estrela, mas é a senhora que o afirma — lhe pertencesse, ou seja, tivesse de permanecer com a senhora sem abandoná-la tão rápida e repentinamente como Klamm o fez. — O senhor está pensando tudo isso a sério? — perguntou a dona do albergue. — A sério — disse K. depressa. — Julgo apenas que os parentes de Hans não estavam nem inteiramente certos nem inteiramente errados nas suas esperanças e creio também reconhecer o erro que a senhora cometeu. Exteriormente tudo parece bem-sucedido, Hans está em boas mãos, tem uma excelente mulher, é respeitado, o albergue está isento de dívidas. Mas na verdade nem tudo deu certo; com uma mulher simples de quem tivesse sido o primeiro grande amor, ele teria sido sem dúvida muito mais feliz; se, como a senhora o censura, ele às vezes parece perdido no albergue, isso acontece porque ele se sente realmente perdido — sem ser infeliz com isso, com certeza, até onde eu já o conheço —, mas é igualmente certo que esse jovem bonito e compreensivo teria sido mais feliz com outra mulher, com o que quero dizer ao mesmo tempo: mais independente, mais ativo, mais viril. E sem dúvida também a senhora não é feliz e, como me dizia, sem as três lembranças não queria continuar vivendo — além do que é doente do coração. Os parentes, portanto, estavam errados alimentando aquelas esperanças? Não acredito. A bênção estava sobre a senhora, mas não souberam fazê-la baixar. — O que então deixaram de fazer? — perguntou a dona do albergue. Ela agora estava estendida de costas e olhava para o teto. — De perguntar a Klamm — disse K. — Estaríamos então de volta ao senhor — disse a dona do albergue. — Ou à senhora — disse K. — Nossos assuntos tocam um no outro. — O que o senhor está então querendo de Klamm? — disse a dona do albergue. Ela havia se erguido para ficar sentada na cama. sacudido os travesseiros para poder se recostar e olhava K. bem nos olhos: — Eu contei meu caso francamente ao senhor para que pudesse aprender alguma coisa com ele. Diga-me com igual franqueza o que então o senhor quer perguntar a Klamm. Foi só com esforço que convenci Frieda a subir ao seu quarto e ficar lá, eu temia que na presença dela o senhor não iria falar com franqueza suficiente. — Não tenho nada a esconder — disse K. — Mas primeiro quero chamar sua atenção para uma coisa. Klamm esquece logo, disse a senhora. Ora, isso me parece, em primeiro lugar, muito improvável, mas em segundo não pode ser provado; é claro que não passa de uma lenda, elucubrada pela mente daquelas meninas que estavam justamente nas graças de Klamm. Admiro-me de que acredite numa invenção tão rasa. — Não é uma lenda — disse a dona do albergue. — Pelo contrário, é fruto da experiência comum. — Ou seja, pode ser refutada por uma nova experiência — disse K. — Existe então mais uma diferença entre o seu caso e o de Frieda. De certo modo não sucedeu que Klamm não tivesse mais chamado Frieda, ao contrário ele a chamou, mas ela não atendeu. É até possível que ele ainda a espere. A dona do albergue silenciou e deixou apenas seu olhar ficar observando K. de alto a baixo. Depois disse: — Quero ouvir calmamente tudo o que o senhor tem a dizer. É melhor falar abertamente do que me poupar. Só tenho um pedido. Não use o nome de Klamm. Chame-o de "ele" ou qualquer outra coisa, mas não pelo nome. — Com prazer — disse K. — Mas o que eu quero dele é difícil de dizer. Primeiro quero vê-lo de perto, depois ouvir sua voz, em seguida quero saber dele o que pensa do nosso casamento; o que talvez eu ainda queira pedir depende do curso da entrevista. Muita coisa pode vir à fala, mas o principal, para mim, é ficar diante dele. Na verdade até agora não conversei diretamente com nenhum funcionário real. Isso parece ser mais difícil de alcançar do que eu acreditava. Agora no entanto tenho o dever de falar com ele como um particular e na minha opinião isso é muito mais fácil de conseguir; como funcionário só posso falar em seu escritório, talvez inacessível, no castelo ou, o que já é duvidoso, na Hospedaria dos Senhores; mas como particular posso falar em qualquer parte, em casa, na rua, onde consiga encontrá-lo. Que nesse caso então eu também tenha diante de mim o funcionário é algo que vou aceitar com prazer, mas não é o meu objetivo principal. — Bem — disse a dona do albergue afundando o rosto no travesseiro como se dissesse alguma coisa indecente. — Se por meio das minhas ligações eu conseguir dar seguimento ao seu pedido de entrevista, o senhor me promete, até a resposta descer, não empreender nada por conta própria? — Isso eu não posso prometer — disse K. — Por mais que queira atender ao seu pedido ou ao seu capricho. O fato é que a coisa urge, principalmente depois do resultado desfavorável da minha conversa com o prefeito. — Essa objeção não é válida — disse a dona do albergue. — O prefeito é uma pessoa completamente sem importância. O senhor não notou isso? Ele não poderia ficar um dia no seu posto se não fosse sua mulher, que dirige tudo. — Mizzi? — disse K. A dona do albergue fez um aceno com a cabeça. — Ela estava lá — disse K. — Ela manifestou sua opinião? — disse a dona do albergue. — Não — disse K. — Também não tive a impressão de que ela pudesse fazer isso. — Ah, sim — disse a dona do albergue. — O senhor tem uma visão errada de tudo, aqui. Seja como for, o que o prefeito dispôs sobre o senhor não tem nenhuma importância e com a mulher eventualmente falo eu. E se ainda por cima lhe prometer que a resposta de Klamm vai chegar no máximo em uma semana, o senhor certamente não tem mais nenhum motivo para não ceder. — Nada disso decide — disse K. — Minha resolução é firme e eu tentaria executá-la mesmo que viesse uma resposta negativa. Mas, se tenho desde já essa intenção, não posso mandar pedir antes uma entrevista. O que sem o pedido talvez fosse uma tentativa temerária, embora de boa-fé, seria aberta rebeldia depois de uma resposta negativa. Sem dúvida isso seria muito pior. — Pior? — disse a dona do albergue. — Em qualquer caso é rebeldia. E agora faça como quiser. Passe-me o vestido. Sem levar K. em conta ela pôs o vestido e foi às pressas para a cozinha. Fazia muito tempo que do salão chegavam sinais de impaciência. Tinham batido na janelinha. Os ajudantes haviam-na aberto uma vez e gritado para dentro que estavam com fome. Depois outros rostos tinham aparecido ali. Ouviu-se até um canto baixo mas de várias vozes. Com certeza a conversa de K. com a dona do albergue havia atrasado muito o preparo do almoço; ele ainda não havia ficado pronto, mas os fregueses estavam reunidos, de qualquer modo ninguém tinha ousado entrar na cozinha desrespeitando a proibição da dona do albergue. Mas assim que os que observavam da janelinha anunciaram que a dona do albergue já estava vindo, as criadas correram logo para a cozinha e quando K. entrou no salão do albergue as pessoas, espantosamente numerosas, mais de vinte, homens e mulheres, vestidos à moda da província, mas não como camponeses, saíram em massa da janelinha, onde tinham estado reunidos, em direção às mesas, para garantir seus lugares. Só numa pequena mesa situada num canto já estava sentado um casal com algumas crianças; o marido, um homem simpático de olhos azuis, cabelo e barba grisalhos e desalinhados, estava em pé inclinado sobre as crianças e marcava com uma faca o compasso do seu canto, que ele se empenhava sem parar em manter baixo. Talvez ele quisesse fazer esquecer a fome com o canto. A dona do albergue desculpou-se diante das pessoas com algumas palavras ditas com indiferença, ninguém lhe fez censuras. Ela procurou com o olhar o dono do albergue, que no entanto, perante a dificuldade da situação, já havia escapulido fazia muito tempo. Depois foi devagar para a cozinha; a K, que se apressou a ir para o quarto de Frieda, ela não concedeu mais nenhum olhar. Kafka deixa muitíssimo evidente, em especial nesse capítulo 6, a incrível capacidade humana de se submeter à outros que seriam teoricamente superiores. Ídolos da televisão, do cinema ou da música são tidos como verdadeiros deuses para pessoas que nem sequer os conhecem de verdade. O ser humano (em sua maioria) tem essa capacidade (ou talvez até mesmo essa necessidade) estranha de tomas figuras para idolatrar, mesmo que tais figuras sejam de barro ou, no caso de estarem vivos, mesmo que tenham um caráter sujo como o barro.
“O ser humano idolatra desde figuras de barro à caráteres tão sujos como o próprio barro.” “Ilusões são mais frequentes que mudanças” “Se o mundo nunca me foi explicado, por quê eu deveria me dar ao trabalho de me explicar para o mundo?” (Pablo V.) “Ele é agrimensor, talvez isso seja algo; ele portanto aprendeu alguma coisa, mas quando não se consegue fazer nada com o que se sabe, não se é nada outra vez.”
complexidade. É oportuno assinalar, não obstante, que um kafkiano pouco conhecido sugere um paralelo de grande interesse ao lembrar, a propósito de O castelo, uma passagem de O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer (parágrafo 17 do segundo livro), segundo a qual um homem dominado por uma vontade inesgotável circula em volta de um castelo na busca inútil de uma entrada. Reduzido ao osso e abstraído com violência o rico tecido de peripécias, o tema do romance de Kafka é exatamente esse; mas é conhecido que o escritor praguense não partilhava do pessimismo de Schopenhauer, embora — conforme consta em pesquisas de filigrana — ele tenha se valido de certas imagens e até de uma ou outra terminologia do filósofo alemão.” Posfácio. O Fausto do Século 20. Modesto Carone À memória de Marilene Carone, tradutora de Freud terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Dom Casmurro

As pessoas esperam viver como as personagens das novelas, onde tudo é lindo - e fantasioso. A arte é a mentira que torna a vida suportável, disse Nietzsche. Mas deve-se saber identificar as diferenças entre a realidade e a ficção à fim de não se cair nas armadilhas que essa confusão pode causar.
Ao encontrar um companheiro, jovens (seja em idade ou em espírito, refiro-me aqui aos que não alcançaram ainda a maturidade e conseqüentemente o discernimento entre o que deve-se viver cruamente e o que deve-se distorcer para deixar a vida suportável) esperam deste proezas só possíveis em contos de fadas. Esperam cavalos brancos, longas tranças loiras como o próprio ouro, juras de amor e cabeças de dragões à seus pés. Quando se fantasia a realidade não se pode alcançar o que se espera sem que se tenha alcançado apenas uma ilusão. A única coisa ruim de uma mentira é não ser verdade. Deve-se saber mentir, mas, antes de tudo deve-se saber que se está a mentir.
Machado de Assis já sabia disto muito bem e, ao criticar o romantismo, ele nos dá uma luz dessa mesma idéia. Machado é filosofia - para quem quiser tê-la-, ou puro romance de folhetim -para as 'queridas leitoras' despretensiosas.






