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sábado, 9 de abril de 2011

Só se lê bem com o coração!


As pessoas grandes não sabem o que perdem ao deixar de ler uma coisinha preciosa dessas. 
Mas, claro, elas só poderam aproveitar o que o Pequeno Príncipe tem a ensinar quando aprenderem a ler com o coração.


Pedacinhos legais:
- Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe ...


 
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.
Dizem que são tão belas!



É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.



- Tu julgarás a ti mesmo, respondeu-lhe o rei. É o mais difícil. É bem mais difícil
julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues julgar-te bem, eis um verdadeiro sábio.



Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...



- Por favor... cativa-me disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho
amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como
não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo, cativa-me!



- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração ... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso!
Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!



Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
 - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
 Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.




- Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente a toma ...
- Elas são felizes ... Disse o guarda-chaves.



O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.


 
- Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim ... e não encontram o que procuram ...
- Não encontram, respondi...
E no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num pouquinho d'água...


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Irmãos Karamázov

 

Um dos melhores livros que já li.

Bom demais para os afazeres do dia-a-dia me deixarem comentar o tanto que gostaria. Afinal, qual a utilidade de pensarmos questões filosóficas universais se ainda não tiramos o pó da casa?

 

“Não está pedindo dinheiro, mas seja como for não vai receber um tostão de mim. Eu, meu querido Alieksiêi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o máximo que puder no mundo, saibam vocês disto, e por isso preciso de cada copeque, e quanto mais eu viver tanto mais esse copeque me será necessário. Por enquanto ainda sou um homem, apesar de tudo, tenho apenas cinquenta e cinco anos, mas ainda quero permanecer uns vinte no rol dos homens, porque vou envelhecer, ficar um trapo e elas não vão querer vir à minha casa de boa vontade, e é por isso que vou precisar de um dinheirinho. É por isso que venho juntando cada vez mais e mais só para mim, meu amável Alieksiêi Fiódorovitch, que fiquem vocês sabendo, porque quero viver até o fim em minha sujeira, fiquem vocês sabendo. Na imundice é que é mais doce: todos falam mal dela, mas nela todos vivem, só que às escondidas, enquanto eu sou transparente. Pois foi por essa minha simplicidade que todos os sujos investiram contra mim.

Já para o teu paraíso, Alieksiêi Fiódorovitch, não quero ir, fica tu sabendo, e para um homem direito é até indecente ir para o teu paraíso, se é que ele existe mesmo. A meu ver, a pessoa dorme e não acorda mais, descobre que não existe nada; lembrem-se de mim se quiserem, e se não quiserem que o diabo que os carregue. Eis minha filosofia."

Fiódor Pávlovitch Karamázov – Abas Os Irmãos Karamázov

 

Trechos do livro:

Pág. 414: A fraternidade não chegará antes que o senhor se torne irmão de fato de toda e qualquer pessoa.

Pg. 426: Eles têm a ciência, e na ciência só aquilo que está sujeito aos sentidos. Já o mundo do espírito, a metade superior do ser humano, foi rejeitado inteiramente, expulso com certo triunfo, até com ódio.

Pg. 507: "Ele era justamente daquele tipo de ciumento que, quando longe da mulher amada, inventava imediatamente sabe Deus que horrores a respeito do que pode acontecer com ela, que ela estaria "traindo" por lá, mas, ao correr de volta para ela, abalado, arrasado, já irreversivelmente certo de que, apesar de tudo, ela arranjou tempo para traí-lo, ao primeiro olhar para o rosto dela, para o rosto sorridente, alegre e carinhoso dessa mulher - imediatamente cria alma nova, imediatamente afasta toda e qualquer suspeita e, tomado de uma vergonha alegre, censura a si mesmo pelo ciúme."

Pg. 663: "-Não, não - é como se Mítia continuasse a não entender -, dize-me: por que estão aí em pé essas mães vítimas de incêndio, por que as pessoas são pobres, por que o bebê é pobre, por que a estepe é nua, por que eles não se abraçam não se beijam, por que não cantam canções alegres, por que a desgraça negra as deixou tão escuras, por que não alimentam o bebê?"

Pg. 684: "-Uns tratantes.

-Quem é tratante?

- Os médicos, e toda a canalha médica; estou falando em geral e, é claro, também em particular. Eu nego a medicina. É uma instituição inútil. Aliáş, venho investigando tudo isso."

Pg. 685: "-Gosto de observar o realismo, Smúrov - falou Kólia subitamente. - Já notaste como os cachorros se cheiram quando se encontram? Nisso se movem por uma lei geral de sua natureza.

- Sei, alguma lei ridícula.

- Ah, não, ridícula não, nisto não tens razão. Na natureza não existe nada ridículo, por mais que pareça ao homem, movido por seus preconceitos. Se os cães fossem capazes de refletir e criticar, nas relações sociais com os homens, seus amos, certamente encontrariam um número igual - se não bem maior - de coisas que achariam ridículas - se não bem maior; repito isto porque tenho a firme convicção de que nós fazemos muito mais tolices."

Pg. 699: "-Qual... Você não iria brincar de cavalinho!

- Você julga a coisa assim - Aliocha deu um sorriso -, mas são adultos, por exemplo, que vão ao teatro, e no teatro também se representam aventuras de personagens de toda espécie, às vezes também incluindo bandoleiros e guerra - pois bem, por acaso não é a mesma coisa, claro que em seu gênero? Mas para os jovens brincar de guerra durante o recreio ou de bandoleiros também é arte nascente, necessidade nascente de arte na alma juvenil, e às vezes essas brincadeiras são compostas até com mais coerência do que as representações no teatro, com a única diferença de que as pessoas vão ao teatro assistir os atores, ao passo que, neste caso, os jovens são os próprios atores. Nada mais natural."

Pg. 755: "Diz: por que viver de fato? É melhor sonhar. Pode-se sonhar a coisa mais alegre, mas viver é um tédio."

Pg. 765: "Só que, pergunto, como é que fica o homem depois disso? Sem Deus e sem vida futura? Quer dizer então que hoje em dia tudo é permitido, pode-se fazer tudo?" "E tu não sabias?" -diz ele. Ele ri. "Um homem inteligente pode tudo, diz ele, o homem inteligente sabe usar de astúcia, já tu, diz ele, mataste, meteste os pés pelas mãos e agora estás apodrecendo na cadeia!"

Pg. 828: "Escuta, nos sonhos, e sobretudo nos pesadelos, quando há desarranjos intestinais ou alguma coisa assim, às vezes o homem vê coisas tão artísticas, uma realidade tão complexa e efetiva, acontecimentos ou até um mundo inteiro de acontecimentos, amarrados por tal intriga, com tais detalhes inesperados, desde manifestações superiores até o último botão do peitilho, que te juro que nem Lev Tolstói conseguiria criá-lo, e no entanto quem tem esses sonhos às vezes não tem nada de escritor, mas são as pessoas mais comuns; funcionários, folhetinistas, padres... Existe até um objetivo relacionado com isso: certa vez um ministro até me confessou que suas melhores ideias lhe ocorriam enquanto ele dormia. Pois é o mesmo que está acontecendo agora. Embora eu até seja tua alucinação, contudo, como num pesadelo, digo coisas originais que até hoje não te ocorreram, de modo que já não repito, em absoluto, os teus pensamentos, e no entanto sou apenas o teu pesadelo e nada mais."

Pg. 830: "Fui a todos os médicos: fazem excelente diagnóstico, explicam toda a doença na ponta dos dedos, mas curar que é bom, ninguém sabe. Apareceu um estudante cheio de entusiasmo: se o senhor vier mesmo a morrer, diz ele, saberá perfeitamente do que morreu. E sempre essa mania de nos encaminhar a especialistas, como quem diz: nós apenas diagnosticamos, agora vá consultar o especialista fulano de tal, que ele o curará. (...) Uma vez lá, ele te examina e diz: 'só posso curar a narina direita, porque não curo narinas esquerdas, não é minha especialidade, mas vá a Viena, lá um especialista específico curará sua narina esquerda".

Pg. 833: "-Ora, estás sempre pensando na nossa Terra de hoje! Só que a própria Terra de hoje talvez já tenha se repetido um bilhão de vezes; renasceu, congelou, rachou, fez-se em pedaços, desintegrou-se em seus componentes iniciais, voltou à água, que ficou sobre a terra, depois voltaram os cometas, voltou o sol, outra vez a Terra se formou do sol - ora, esse desenvolvimento possivelmente vem se repetindo infinitamente, e tudo sob o mesmo aspecto até os mínimos detalhes. O mais indecente dos tédios."

Abaixo trecho curiosamente semelhante da ideia exposta acima, porém mais elaborado:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira! ". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

Friedrich Nietzsche; (A Gaia Ciência: Aforismo 341)

Pág. 840: Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito.

Pág. 937: "(...) A psicologia, senhores, embora seja uma coisa profunda, ainda assim parece uma faca de dois gumes(...)."

Pág. 940: "A psicologia convida ao romance até os homens mais sérios, e isso de modo inteiramente involuntário. Estou falando de excesso de psicologia, senhores jurados, de certo abuso dela."

Adeus passado

"Adeus todo o passado, rompo para sempre os meus laços com o mundo do passado, e que dele não me chegue nem notícia, nem eco; para um novo mundo, para novos lugares, e sem olhar para trás!" contudo, em vez do êxtase sua alma viu-se de repente invadida por tais trevas, seu coração foi pungido por uma aflição tal como ele jamais experimentara em toda a sua vida. Passou a noite inteira refletindo; o trem voava, e só ao raiar do dia, já chegando a Moscou, ele pareceu recobrar-se de repente.

(Irmãos Karamázov - Pág. 386)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Castelo - Kafka




"Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo". (Kafka)



É difícil explicar o porque de Kafka. Livros relativamente pouco consagrados, de leitura confusa e estranha não são atrativos comuns. Em detrimento disto, ou talvez mesmo por isso, senti-me compelido a entregar-me ao universo kafkiano – mais uma vez.
Além de alguns mini-contos, conheci previamente O Processo e já estava familiarizado com o estilo peculiaríssimo de Kafka. O Castelo me lembrou em muito O Processo. A sensação de confusão experimentada durante a leitura é indescritível. À princípio a lógica incomum da leitura d'O Processo me fez pensar que talvez a lógica de Kafka fosse fugir completamente à lógica – mesmo de sua própria. Porém, talvez seja escrever sempre situações surpreendentes e inusitadas.

"[estou] sempre tentando explicar algo que não pode ser explicado"
(Kafka)


Uma das definições que mais me agradam sobre Kafka é a que diz serem suas obras 'confusas como pesadelos'. Agrada-me justamente porque é exatamente a sensação que experimento durante sua leitura. A falta de conexão entre os fatos, a lógica falha e descompromissada -preguiçosa quase-, personagens que têm objetivos dúbios e se entregam avidamente à eles sem questionamento me fazem pensar sobre a tal da Vida Real.
Quantos de nós sabem dizer exatamente o que querem? Desses poucos, quantos têm motivos realmente plausíveis para se dedicar ao que acreditar? Há realmente algo em que valha a pena acreditar?
“Ler Kafka é mais do que colocar suas convicções em xeque. É por em dúvida as próprias dúvidas.”


“O senhor interpreta tudo erradamente, até o silêncio.”
(...) pois com o trabalho que faz — fumar cachimbo, ficar escutando os fregueses, depois esvaziar o cachimbo e de vez em quando ir buscar uma cerveja —, com esse tipo de trabalho não se envelhece.





Capítulo 6


Segunda conversa com a dona do albergue Diante do albergue o dono da casa o esperava. Sem ser interpelado ele não teria ousado falar, por isso K. perguntou o que ele queria. — Já tem outro lugar para ficar? — perguntou de volta o dono do albergue, olhando para o chão. — Você está fazendo a pergunta por conta de sua mulher — disse K. — Depende dela a esse ponto? — Não — disse o dono do albergue. — Não estou perguntando em nome dela. Mas ela está muito agitada e infeliz por sua causa, não pode trabalhar, fica dei­tada na cama, suspirando e se lamentando sem parar. — Devo ir falar com ela? — perguntou K. — Peço por favor que vá — disse o dono do alber­gue. — Eu já quis ir buscá-lo na casa do prefeito, fiquei escutando à porta, mas como estavam conversando não quis perturbar, além disso eu estava preocupado com minha mulher, corri de volta para cá. ela porém não me deixou entrar no quarto e assim não me restou outra coisa senão esperá-lo. — Então vamos rápido — disse K. — Vou tranqüilizá-la logo. — Espero que consiga — disse o dono do albergue. Atravessaram a cozinha clara, onde três ou quatro criadas, cada uma distante da outra, cuidando dos seus respectivos trabalhos, ficaram literalmente paralisadas à vista de K. Já da cozinha se ouviam os suspiros da dona do albergue. Ela estava deitada num cubículo sem janela separado da cozinha por um leve tabique de madeira. Só havia espaço para um grande leito de casal e um armário. A cama estava colocada de tal modo que dela se podia ver toda a cozinha e vigiar o trabalho. Da cozinha, porém, não se podia ver quase nada do quartinho, lá estava completamente escuro, só a coberta branca e vermelha cintilava um pouco. Quando se havia entrado e os olhos se habituado à escuridão é que se podiam distinguir os detalhes. — Finalmente o senhor veio — disse a dona do albergue com voz fraca. Ela estava deitada de costas, era evidente que tinha dificuldade para respirar, havia atirado a coberta de plumas para os pés da cama. Parecia muito mais jovem no leito do que vestida, mas uma touquinha de dormir de renda delicada, que tinha na cabeça, embora fosse pequena demais e oscilasse sobre os cabelos, fazia a decadência do seu rosto causar pena. — Como é que poderia ter vindo? — disse K. com brandura. — A senhora não mandou me chamar. — O senhor não deveria ter-me feito esperar tanto — disse a dona do albergue com a obstinação dos doentes. — Sente-se — disse apontando para a beira da cama. — Os outros, porém, vão embora. Além dos ajudantes haviam entrado no quarto, nesse meio tempo, também as criadas. — Devo também ir embora, Gardena? — disse o dono do albergue. K. ouvia pela primeira vez o nome da mulher. — Naturalmente — disse ela devagar. Como se estivesse entretida com outros pensamentos, acrescentou: — Por que justamente você deveria ficar? Quando todos haviam se retirado para a cozinha — dessa vez os ajudantes também seguiram, embora estivessem atrás de uma criada —, Gardena teve presença de espírito suficiente para perceber que se podia escutar da cozinha tudo o que ali se falava, pois o tabique não tinha porta. Ordenou por isso que todos deixassem também a cozinha, o que se fez imediatamente. — Por favor, senhor agrimensor — disse então Gardena —, no armário bem em frente está pendurado um xale, pegue-o para mim, quero me cobrir com ele, não suporto o cobertor de penas, respiro com tanta dificuldade. E quando K. lhe trouxe o xale ela disse: — Como o senhor vê, é um belo xale, não é verdade? Para K. parecia ser uma peça comum de lã, ele a apalpou mais uma vez por gentileza, mas não disse nada. — Sim, é um belo xale — disse Gardena cobrindo-se com ele. Ela agora estava deitada ali tranqüilamente, parecia que toda dor a tinha deixado, ocorreu-lhe até que seus cabelos haviam ficado em desalinho pelo fato de estar deitada; sentou-se por um instante na cama e arrumou um pouco o penteado em volta da pequena touca. Sua cabeleira era abundante. K. ficou impaciente e disse: — A senhora mandou perguntar se eu já tinha outro lugar para morar. — Mandei perguntar? — disse a dona do albergue. — Não, é um engano. — Seu marido acaba de me perguntar isso. — Acredito — disse a dona do albergue. — É uma rixa entre nós. Quando eu não queria o senhor aqui, ele o reteve; agora que estou feliz com o fato de o senhor estar morando aqui, ele o manda embora. Ele sempre faz coisas assim. — A senhora então — disse K. — mudou tanto sua opinião a meu respeito? Em uma, duas horas? — Não mudei de opinião — disse a dona do albergue outra vez com a voz fraca. — Estenda-me a sua mão. Assim. E agora me prometa ser completamente honesto, eu também vou fazer o mesmo com o senhor. — Está bem — disse K. — Mas quem vai começar? — Eu — disse a dona do albergue, sem deixar a impressão de que desse modo quisesse ser gentil com K., mas de que estava ansiosa por ser a primeira a falar. Tirou uma fotografia de sob o travesseiro e estendeu a K. — Olhe esta fotografia — disse num tom de súplica. Para enxergar melhor, K. deu um passo para dentro da cozinha, mas lá também não era fácil reconhecer alguma coisa na foto, pois ela estava empalidecida pelo tempo, rachada em vários lugares, amassada e cheia de manchas. — Ela não está em muito bom estado — disse K. — Infelizmente, infelizmente — disse a dona do albergue. Quando alguém a leva sempre consigo, de cá para lá, durante anos, ela fica assim. Mas se o senhor olhar direito, vai reconhecer tudo. com toda a certeza. Posso, aliás, ajudá-lo: diga-me o que está vendo, alegra-me muito ouvir falar da fotografia. E então, o que vê? — Um jovem — disse K. — Certo — disse a dona do albergue. — E o que ele está fazendo? — Creio que está deitado numa tábua, esticando o corpo e bocejando. A dona do albergue riu. — Completamente errado — disse ela. — Mas aqui está a tábua e aqui está ele deitado — insistiu K. no seu ponto de vista. — Olhe com mais atenção — disse a dona do albergue irritada. — Ele está realmente deitado? — Não — disse então K. — Ele não está deitado, está suspenso no ar e agora eu vejo que não é uma tábua, mas provavelmente um fio, e o jovem está dando um salto. — Eis aí — disse satisfeita a dona do albergue. — Ele está saltando, é assim que se exercitam os mensageiros oficiais, eu sabia que o senhor iria perceber. Vê também o rosto dele? — Do rosto só vejo muito pouco — disse K. — É evidente que está fazendo esforço, a boca está aberta, os olhos apertados e o cabelo esvoaça. — Muito bem — disse a dona do albergue com aprovação. — Mais que isso alguém que não viu pessoalmente não consegue perceber. Mas era um bonito jovem, eu só o vi fugazmente uma vez e nunca vou esquecê-lo. — Quem era ele, então? — perguntou K. — Era o mensageiro pelo qual Klamm me chamou pela primeira vez — disse a dona do albergue. K. não pôde escutar direito, sua atenção tinha sido desviada por um retinir de vidro. Descobriu logo a causa da perturbação. Os ajudantes estavam no pátio de fora, pulando na neve ora com um pé, ora com outro. Agiam como se estivessem felizes por ver K. outra vez, de felicidade apontavam um para o outro e davam contínuas batidinhas na vidraça da cozinha. A um movimento ameaçador de K. deixaram imediatamente de fazer isso, procurando empurrar um ao outro para trás, mas logo um escapulia do outro e lá estavam os dois outra vez junto à janela. K. foi correndo para dentro do tabique, onde os ajudantes não podiam vê-lo de fora, do mesmo modo que ele não podia vê-los. Mas o tinir da vidraça, leve e suplicante, continuou a persegui-lo ali também por muito tempo. — Outra vez os ajudantes — disse ele à dona do albergue para se desculpar, apontando para fora. Ela porém não prestou atenção, tirou dele a fotografia, olhou-a, alisou-a e colocou-a de novo sob o travesseiro. Seus movimentos haviam se tornado mais vagarosos, não por cansaço, mas por causa do peso da recordação. Ela quisera contar a K. e o havia esquecido por causa da história. Ficou brincando com as franjas do xale. Só um instante depois é que levantou o olhar, passou a mão sobre os olhos e disse: — Este xale também é de Klamm. A touca também. A fotografia, o xale e a touca são as três lembranças que tenho dele. Não sou tão jovem como Frieda, não sou tão ambiciosa quanto ela, nem tão sensível, ela é muito sensível, em suma, eu sei como me adaptar à vida, mas uma coisa preciso admitir: sem estas três coisas não teria suportado ficar aqui tanto tempo, com toda probabilidade não teria suportado um dia aqui. Talvez estas três recordações pareçam pouca coisa ao senhor, mas veja: Frieda, que conviveu com Klamm tanto tempo, não possui absolutamente nenhuma lembrança, eu perguntei a ela, ela é entusiasmada demais e além disso exigente demais; eu, pelo contrário, que estive com Klamm só três vezes — depois disso ele não me mandou mais chamar, não sei por quê —. trouxe comigo estas recordações, sem dúvida pressentindo que meu tempo seria breve. Certamente é preciso se preocupar com isso, espontaneamente Klamm não dá nada, mas quando a pessoa vê ali alguma coisa adequada, pode obtê-la pedindo. K. sentiu-se desconfortável diante dessas histórias, por mais que elas também dissessem respeito a ele. — Há quanto tempo foi tudo isso? — perguntou suspirando. — Há mais de vinte anos — disse a dona do albergue. — Bem mais de vinte anos. — Esse é portanto o tempo que se mantém a fidelidade a Klamm — disse K. — Mas a senhora está consciente também de que com essas confissões me causa graves preocupações quando penso no meu futuro casamento? A dona do albergue achou incorreto que K. quisesse se intrometer nos seus assuntos pessoais e olhou-o de lado, irada. — Não fique tão zangada, minha senhora — disse K. — Não estou dizendo uma palavra contra Klamm, mas por força dos acontecimentos entrei em determinadas relações com Klamm; isso nem o maior admirador de Klamm pode negar. Pois bem. Em virtude disso, a menção a Klamm sempre me força a pensar em mim, não há o que fazer. Aliás, senhora — e aqui K. agarrou sua mão hesitante —, pense em como nossa última conversa acabou mal e no fato de que desta vez queremos nos separar em paz. — O senhor tem razão — disse a dona do albergue inclinando a cabeça. — Mas por favor me poupe. Não sou mais suscetível que os outros, pelo contrário, cada qual tem pontos vulneráveis e eu só tenho este. — Infelizmente ele também é ao mesmo tempo o meu — disse K. — Mas certamente vou me dominar; explique-me no entanto, minha senhora, como devo suportar no casamento essa horrível fidelidade a Klamm, uma vez que nisso Frieda também é parecida com a senhora. — Horrível fidelidade? — repetiu com rancor a dona do albergue. — Então isso é fidelidade? Sou fiel ao meu marido, mas em relação a Klamm o que sou? Klamm tornou-me uma vez sua amante, será que posso um dia perder esse nível? E como o senhor deve suportar isso com Frieda? Ah, senhor agrimensor, quem é o senhor para ousar perguntar isso? — Senhora dona do albergue! — disse K. em tom de advertência. — Eu sei — disse a dona do albergue cedendo. — Mas nem meu marido fez essas perguntas. Não sei quem deve ser considerada mais infeliz, eu naquela época ou Frieda agora. Frieda, que deixou voluntariamente Klamm. ou eu, que ele não mandou mais chamar. Talvez seja Frieda, embora ela ainda não pareça sabê-lo em toda a sua dimensão. Mas outrora meus pensamentos eram dominados exclusivamente por minha desgraça, pois eu precisava me perguntar continuamente e no fundo ainda hoje não paro de perguntar o seguinte: por que isso aconteceu? Klamm mandou me chamar três vezes e na quarta não me chamou mais. na quarta vez nunca, nunca mais! O que então me ocupava além disso? Sobre o que então eu podia conversar com o meu marido, com quem logo depois me casei? Durante o dia não tínhamos tempo, assumimos este albergue num estado miserável e tínhamos de colocá-lo em pé. mas e à noite? Anos e anos nossas conversas noturnas só giravam sobre Klamm e as razões que o levaram a mudar de intenção. E quando meu marido adormecia durante essas conversas, eu o acordava e continuávamos falando disso. — Agora, se me permite — disse K. —. vou fazer-lhe uma pergunta muito grosseira. A dona do albergue silenciou. — A senhora portanto não me autoriza a fazê-la — disse K. — Isso também me basta. — Certamente — disse a dona do albergue. — Também isso lhe basta e sobretudo isso. O senhor interpreta tudo erradamente, até o silêncio. Mas não pode agir de outro modo. Permito que me faça a pergunta. — Se interpreto tudo errado — disse K. —, talvez faça o mesmo até com a minha pergunta, talvez ela não seja tão grosseira. Eu queria apenas saber como a senhora conheceu o seu marido e como chegaram à posse deste albergue. A dona do albergue franziu a testa mas disse com serenidade: — Essa história é simples. Meu pai era ferreiro, e Hans, meu atual marido, cavalariço de um grande proprietário rural, vinha ver meu pai com freqüência. Isso foi depois do último encontro com Klamm, eu estava muito infeliz e na verdade não devia estar, pois tudo havia evoluído corretamente e o fato de não poder mais me encontrar com Klamm tinha sido uma decisão de Klamm, portanto era correta, apenas os motivos eram obscuros, eu podia pesquisá-los, mas não devia ter ficado infeliz, mas a verdade é que estava, não conseguia trabalhar e ficava o dia todo sentada no nosso jardinzinho da frente. Foi ali que Hans me viu, sentou-se algumas vezes ao meu lado, com ele eu não me queixava; mas ele sabia do que se tratava e porque é um jovem bondoso acontecia que chorava comigo. Quando o proprietário do albergue naquela ocasião, que havia perdido a mulher e por isso obrigado a renunciar à atividade — além do mais já era um homem idoso —, passou pelo nosso jardinzinho e nos viu ali sentados, parou e, sem mais, nos ofereceu o albergue para que o arrendássemos; não queria nenhuma antecipação em dinheiro porque confiava em nós e pediu um preço bem baixo pelo arrendamento. Eu só não queria ser um peso para o meu pai; o resto me era indiferente e assim, pensando no albergue e no novo trabalho, que talvez trouxesse algum esquecimento, concedi minha mão a Hans. Essa é a história. Houve um momento de silêncio, depois K. disse: — O modo de agir do dono do albergue naquela época foi um belo gesto, apesar de imprudente, ou ele tinha motivos particulares para confiar nos dois? — Ele conhecia Hans — disse a dona do albergue. — Era tio de Hans. — Com certeza então a família de Hans tinha o maior interesse na união dele com a senhora — disse K. — Talvez — disse a dona do albergue. — Não sei, não me preocupei com isso. — Mas deve ter sido assim, sem dúvida — disse K. — Se a família estava disposta a fazer esse sacrifício e entregar o albergue nas suas mãos. simplesmente sem garantia. — Não foi imprudente, como se viu mais tarde — disse a dona do albergue. — Lancei-me ao trabalho, eu era forte, filha do ferreiro, não precisava de criada ou criado, estava em toda parte, na sala do albergue, na cozinha, no estábulo, no pátio, cozinhava tão bem que tirava clientes até da Hospedaria dos Senhores; o senhor não estava no albergue na hora do almoço, não conhece nossos clientes do almoço, antes eram mais numerosos ainda, depois é que muitos foram se dispersando. E o resultado foi que não só pudemos pagar em dia o arrendamento, mas também compramos tudo depois de alguns anos e o albergue hoje está quase isento de dívidas. O outro resultado certamente foi que me destruí com isso, fiquei doente do coração e agora sou uma mulher velha. Talvez o senhor creia que sou muito mais velha do que Hans, mas na realidade ele é apenas dois ou três anos mais novo e com certeza nunca vai envelhecer, pois com o trabalho que faz — fumar cachimbo, ficar escutando os fregueses, depois esvaziar o cachimbo e de vez em quando ir buscar uma cerveja —, com esse tipo de trabalho não se envelhece. — O que a senhora fez é admirável — disse K. — Quanto a isso não há dúvida, mas estávamos falando do tempo anterior ao seu casamento e naquela época deve ter sido estranho que a família de Hans pressionasse no sentido do casamento, com sacrifício financeiro ou pelo menos assumindo um risco tão grande, como era o arrendamento do albergue, não tendo no caso nenhuma outra esperança a não ser a força de trabalho da senhora — que ainda não se conhecia — e a força de trabalho de Hans, cuja inexistência já se deveria conhecer. — Muito bem — disse a dona do albergue cansada. — Sei aonde quer chegar e também o quanto se engana. Em tudo isso não havia o menor rastro de Klamm. Por que ele deveria ter se preocupado comigo, ou melhor: como poderia ter de alguma forma se preocupado? Ele já não sabia mais nada de mim. O fato de não ter mais mandado me chamar era um sinal de que havia me esquecido. Quem ele não manda mais chamar é quem ele esquece por completo. Não quis falar sobre isso na frente de Frieda. Mas não é apenas esquecimento, é mais do que isso. Aquele de quem se esqueceu pode-se conhecer de novo. Com Klamm isso não é possível. Quem ele não manda mais chamar não só foi esquecido completamente em relação ao passado, mas também para o futuro todo — literalmente. Quando me esforço muito posso penetrar nos seus pensamentos, senhor agrimensor, pensamentos que aqui não fazem sentido, mas que talvez sejam válidos no país estrangeiro do qual o senhor vem. Possivelmente o senhor se atreva à loucura de pensar que Klamm me deu Hans como marido para que eu não encontrasse muito obstáculo para ir até ele caso no futuro me mandasse chamar. Bem, mais longe que isso nem a loucura pode ir. Mas que marido poderia me impedir de correr para Klamm se Klamm me fizesse um sinal? Absurdo, completo absurdo, quando alguém brinca com um absurdo assim, confunde a si mesmo. — Não — disse K. — Não vamos nos confundir, eu ainda não tinha ido tão longe nos meus pensamentos como a senhora supõe, embora, para dizer a verdade, estivesse a caminho. No momento, porém, me surpreendia apenas com o fato de que os parentes esperassem tanto do casamento e de que essas esperanças efetivamente se realizassem, se bem que à custa do seu coração e da sua saúde. A idéia de uma ligação entre esses fatos e Klamm certamente se impunha aos meus pensamentos, mas não — ou ainda não — na forma grosseira como a senhora apresentou, evidentemente com o único propósito de me descompor mais uma vez porque isso lhe dá prazer. Tenha então esse prazer! Mas o que eu estava pensando era o seguinte: primeiro de tudo, Klamm é claramente a causa do casamento. Sem Klamm a senhora não teria sido infeliz, não teria ficado sentada sem fazer nada no jardinzinho da frente, sem Klamm não teria visto Hans ali, sem a tristeza da senhora o tímido Hans não teria nunca ousado lhe falar, sem Klamm nunca teria se encontrado com Hans nas lágrimas, sem Klamm o velho e bom tio dono do albergue nunca teria visto Hans e a senhora tranqüilamente sentados juntos ali, sem Klamm a senhora não teria ficado indiferente diante da vida e portanto não teria se casado com Hans. Bem, eu devia achar que em tudo isso já havia Klamm suficiente, na minha opinião. Mas ainda continua. Se a senhora não tivesse procurado se esquecer, certamente não teria trabalhado com tamanha falta de consideração por si mesma, nem melhorado tanto o albergue. Aqui também entra Klamm. Mas, à parte isso, Klamm também é a causa da sua doença, pois o coração da senhora já estava esgotado antes do casamento em virtude da paixão infeliz. Resta só perguntar o que atraía tanto os parentes de Hans nesse casamento. A senhora mesmo mencionou uma vez que ser amante de Klamm significa uma elevação de nível que não se perde; logo, pode ser que isso os tenha atraído. Além do que, acredito, a esperança de que a boa estrela que a conduziu a Klamm — supondo que era uma boa estrela, mas é a senhora que o afirma — lhe pertencesse, ou seja, tivesse de permanecer com a senhora sem abandoná-la tão rápida e repentinamente como Klamm o fez. — O senhor está pensando tudo isso a sério? — perguntou a dona do albergue. — A sério — disse K. depressa. — Julgo apenas que os parentes de Hans não estavam nem inteiramente certos nem inteiramente errados nas suas esperanças e creio também reconhecer o erro que a senhora cometeu. Exteriormente tudo parece bem-sucedido, Hans está em boas mãos, tem uma excelente mulher, é respeitado, o albergue está isento de dívidas. Mas na verdade nem tudo deu certo; com uma mulher simples de quem tivesse sido o primeiro grande amor, ele teria sido sem dúvida muito mais feliz; se, como a senhora o censura, ele às vezes parece perdido no albergue, isso acontece porque ele se sente realmente perdido — sem ser infeliz com isso, com certeza, até onde eu já o conheço —, mas é igualmente certo que esse jovem bonito e compreensivo teria sido mais feliz com outra mulher, com o que quero dizer ao mesmo tempo: mais independente, mais ativo, mais viril. E sem dúvida também a senhora não é feliz e, como me dizia, sem as três lembranças não queria continuar vivendo — além do que é doente do coração. Os parentes, portanto, estavam errados alimentando aquelas esperanças? Não acredito. A bênção estava sobre a senhora, mas não souberam fazê-la baixar. — O que então deixaram de fazer? — perguntou a dona do albergue. Ela agora estava estendida de costas e olhava para o teto. — De perguntar a Klamm — disse K. — Estaríamos então de volta ao senhor — disse a dona do albergue. — Ou à senhora — disse K. — Nossos assuntos tocam um no outro. — O que o senhor está então querendo de Klamm? — disse a dona do albergue. Ela havia se erguido para ficar sentada na cama. sacudido os travesseiros para poder se recostar e olhava K. bem nos olhos: — Eu contei meu caso francamente ao senhor para que pudesse aprender alguma coisa com ele. Diga-me com igual franqueza o que então o senhor quer perguntar a Klamm. Foi só com esforço que convenci Frieda a subir ao seu quarto e ficar lá, eu temia que na presença dela o senhor não iria falar com franqueza suficiente. — Não tenho nada a esconder — disse K. — Mas primeiro quero chamar sua atenção para uma coisa. Klamm esquece logo, disse a senhora. Ora, isso me parece, em primeiro lugar, muito improvável, mas em segundo não pode ser provado; é claro que não passa de uma lenda, elucubrada pela mente daquelas meninas que estavam justamente nas graças de Klamm. Admiro-me de que acredite numa invenção tão rasa. — Não é uma lenda — disse a dona do albergue. — Pelo contrário, é fruto da experiência comum. — Ou seja, pode ser refutada por uma nova experiência — disse K. — Existe então mais uma diferença entre o seu caso e o de Frieda. De certo modo não sucedeu que Klamm não tivesse mais chamado Frieda, ao contrário ele a chamou, mas ela não atendeu. É até possível que ele ainda a espere. A dona do albergue silenciou e deixou apenas seu olhar ficar observando K. de alto a baixo. Depois disse: — Quero ouvir calmamente tudo o que o senhor tem a dizer. É melhor falar abertamente do que me poupar. Só tenho um pedido. Não use o nome de Klamm. Chame-o de "ele" ou qualquer outra coisa, mas não pelo nome. — Com prazer — disse K. — Mas o que eu quero dele é difícil de dizer. Primeiro quero vê-lo de perto, depois ouvir sua voz, em seguida quero saber dele o que pensa do nosso casamento; o que talvez eu ainda queira pedir depende do curso da entrevista. Muita coisa pode vir à fala, mas o principal, para mim, é ficar diante dele. Na verdade até agora não conversei diretamente com nenhum funcionário real. Isso parece ser mais difícil de alcançar do que eu acreditava. Agora no entanto tenho o dever de falar com ele como um particular e na minha opinião isso é muito mais fácil de conseguir; como funcionário só posso falar em seu escritório, talvez inacessível, no castelo ou, o que já é duvidoso, na Hospedaria dos Senhores; mas como particular posso falar em qualquer parte, em casa, na rua, onde consiga encontrá-lo. Que nesse caso então eu também tenha diante de mim o funcionário é algo que vou aceitar com prazer, mas não é o meu objetivo principal. — Bem — disse a dona do albergue afundando o rosto no travesseiro como se dissesse alguma coisa indecente. — Se por meio das minhas ligações eu conseguir dar seguimento ao seu pedido de entrevista, o senhor me promete, até a resposta descer, não empreender nada por conta própria? — Isso eu não posso prometer — disse K. — Por mais que queira atender ao seu pedido ou ao seu capricho. O fato é que a coisa urge, principalmente depois do resultado desfavorável da minha conversa com o prefeito. — Essa objeção não é válida — disse a dona do albergue. — O prefeito é uma pessoa completamente sem importância. O senhor não notou isso? Ele não poderia ficar um dia no seu posto se não fosse sua mulher, que dirige tudo. — Mizzi? — disse K. A dona do albergue fez um aceno com a cabeça. — Ela estava lá — disse K. — Ela manifestou sua opinião? — disse a dona do albergue. — Não — disse K. — Também não tive a impressão de que ela pudesse fazer isso. — Ah, sim — disse a dona do albergue. — O senhor tem uma visão errada de tudo, aqui. Seja como for, o que o prefeito dispôs sobre o senhor não tem nenhuma importância e com a mulher eventualmente falo eu. E se ainda por cima lhe prometer que a resposta de Klamm vai chegar no máximo em uma semana, o senhor certamente não tem mais nenhum motivo para não ceder. — Nada disso decide — disse K. — Minha resolução é firme e eu tentaria executá-la mesmo que viesse uma resposta negativa. Mas, se tenho desde já essa intenção, não posso mandar pedir antes uma entrevista. O que sem o pedido talvez fosse uma tentativa temerária, embora de boa-fé, seria aberta rebeldia depois de uma resposta negativa. Sem dúvida isso seria muito pior. — Pior? — disse a dona do albergue. — Em qualquer caso é rebeldia. E agora faça como quiser. Passe-me o vestido. Sem levar K. em conta ela pôs o vestido e foi às pressas para a cozinha. Fazia muito tempo que do salão chegavam sinais de impaciência. Tinham batido na janelinha. Os ajudantes haviam-na aberto uma vez e gritado para dentro que estavam com fome. Depois outros rostos tinham aparecido ali. Ouviu-se até um canto baixo mas de várias vozes. Com certeza a conversa de K. com a dona do albergue havia atrasado muito o preparo do almoço; ele ainda não havia ficado pronto, mas os fregueses estavam reunidos, de qualquer modo ninguém tinha ousado entrar na cozinha desrespeitando a proibição da dona do albergue. Mas assim que os que observavam da janelinha anunciaram que a dona do albergue já estava vindo, as criadas correram logo para a cozinha e quando K. entrou no salão do albergue as pessoas, espantosamente numerosas, mais de vinte, homens e mulheres, vestidos à moda da província, mas não como camponeses, saíram em massa da janelinha, onde tinham estado reunidos, em direção às mesas, para garantir seus lugares. Só numa pequena mesa situada num canto já estava sentado um casal com algumas crianças; o marido, um homem simpático de olhos azuis, cabelo e barba grisalhos e desalinhados, estava em pé inclinado sobre as crianças e marcava com uma faca o compasso do seu canto, que ele se empenhava sem parar em manter baixo. Talvez ele quisesse fazer esquecer a fome com o canto. A dona do albergue desculpou-se diante das pessoas com algumas palavras ditas com indiferença, ninguém lhe fez censuras. Ela procurou com o olhar o dono do albergue, que no entanto, perante a dificuldade da situação, já havia escapulido fazia muito tempo. Depois foi devagar para a cozinha; a K, que se apressou a ir para o quarto de Frieda, ela não concedeu mais nenhum olhar. Kafka deixa muitíssimo evidente, em especial nesse capítulo 6, a incrível capacidade humana de se submeter à outros que seriam teoricamente superiores. Ídolos da televisão, do cinema ou da música são tidos como verdadeiros deuses para pessoas que nem sequer os conhecem de verdade. O ser humano (em sua maioria) tem essa capacidade (ou talvez até mesmo essa necessidade) estranha de tomas figuras para idolatrar, mesmo que tais figuras sejam de barro ou, no caso de estarem vivos, mesmo que tenham um caráter sujo como o barro.




“O ser humano idolatra desde figuras de barro à caráteres tão sujos como o próprio barro.” “Ilusões são mais frequentes que mudanças” “Se o mundo nunca me foi explicado, por quê eu deveria me dar ao trabalho de me explicar para o mundo?” (Pablo V.) “Ele é agrimensor, talvez isso seja algo; ele portanto aprendeu alguma coisa, mas quando não se consegue fazer nada com o que se sabe, não se é nada outra vez.”


“É claro que a abundância de referências atua como linha auxiliar no entendimento de um livro complexo, mas nem de longe dá conta dessa complexidade. É oportuno assinalar, não obstante, que um kafkiano pouco conhecido sugere um paralelo de grande interesse ao lembrar, a propósito de O castelo, uma passagem de O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer (parágrafo 17 do segundo livro), segundo a qual um homem dominado por uma vontade inesgotável circula em volta de um castelo na busca inútil de uma entrada. Reduzido ao osso e abstraído com violência o rico tecido de peripécias, o tema do romance de Kafka é exatamente esse; mas é conhecido que o escritor praguense não partilhava do pessimismo de Schopenhauer, embora — conforme consta em pesquisas de filigrana — ele tenha se valido de certas imagens e até de uma ou outra terminologia do filósofo alemão.” Posfácio. O Fausto do Século 20. Modesto Carone À memória de Marilene Carone, tradutora de Freud
[Max] Brod afirma, também, que Kafka teria declarado pessoalmente a ele que o romance chegaria a um desenlace no qual K., já no leito de morte, cercado pelos habitantes da aldeia, receberia uma mensagem no sentido de que as autoridades do castelo permitiriam que ele permanecesse na aldeia, embora sem o direito de reivindicar tal permanência.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dom Casmurro



O mal do nosso século é o romantismo.
As pessoas esperam viver como as personagens das novelas, onde tudo é lindo - e fantasioso. A arte é a mentira que torna a vida suportável, disse Nietzsche. Mas deve-se saber identificar as diferenças entre a realidade e a ficção à fim de não se cair nas armadilhas que essa confusão pode causar.
Ao encontrar um companheiro, jovens (seja em idade ou em espírito, refiro-me aqui aos que não alcançaram ainda a maturidade e conseqüentemente o discernimento entre o que deve-se viver cruamente e o que deve-se distorcer para deixar a vida suportável) esperam deste proezas só possíveis em contos de fadas. Esperam cavalos brancos, longas tranças loiras como o próprio ouro, juras de amor e cabeças de dragões à seus pés. Quando se fantasia a realidade não se pode alcançar o que se espera sem que se tenha alcançado apenas uma ilusão. A única coisa ruim de uma mentira é não ser verdade. Deve-se saber mentir, mas, antes de tudo deve-se saber que se está a mentir.
Machado de Assis já sabia disto muito bem e, ao criticar o romantismo, ele nos dá uma luz dessa mesma idéia. Machado é filosofia - para quem quiser tê-la-, ou puro romance de folhetim -para as 'queridas leitoras' despretensiosas.


“Capitu olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias, oblíquo e dissimulado; levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:
--Diga-me uma cousa, mas fale verdade, não quero disfarce; há de responder com o coração na mão.
--Que é? Diga.
--Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?
-- Eu?
Fez-me sinal que sim.
--Eu escolhia... mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.
--Pois sim, mas eu pergunto. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer...
--Não diga isso!
-- ...Ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não quiser que você venha, diga-me, você vem?
--Venho.
--Contra a ordem de sua mãe?
--Contra a ordem de mamãe.
--Você deixa seminário, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?
--Não fale em morrer, Capitu!
Capitu teve um risinho descorado e incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão, inclinei-me e li: mentiroso. ”







Mais uma vez procurei um clássico para me distrair do tédio. Encontrei Dom Casmurro em alguma das minhas anotações de 'próximas leituras recomendadas' e carreguei o celular com o texto cheio de malícia e duplos-sentidos. O tédio felizmente não me perturbou durante o carnaval e o livro acabou ficando pra depois do feriado, lido com 9 horinhas. Pequeno e rápido, tipo de livro que me atiça para segundas ou mais leituras.


Dom Casmurro foi publicado em 1900 e é um dos romance mais conhecidos de Machado de Assis. Narra em primeira pessoa a estória de Bentinho que, por circunstância várias, vai se fechando em si mesmo e passa a ser conhecido como Dom Casmurro. Sua estória é a seguinte: Órfão de pai, criado com desvelo pela mãe (D. Glória), protegido do mundo pelo círculo doméstico e familiar (tia Justina, tio Cosme, José Dias), Bentinho é destinado à vida sacerdotal, em cumprimento a uma antiga promessa de sua mãe.
A vida do seminário, no entanto, não o atrai, já o namoro com Capitu, filha dos vizinhos... Apesar de comprometida pela promessa, também D. Glória sofre com a idéia de separar-se do filho único, interno no seminário. Por expediente de José Dias, o agregado da família, Bentinho abandona o seminário e, em seu lugar, ordena-se um escravo.
Correm os anos e com eles o amor de Bentinho e Capitu. Entre o namoro e o casamento, Bentinho se forma em Direito e estreita a sua amizade com um ex-colega de seminário, Escobar, que acaba se casando com Sancha, amiga de Capitu.
Do casamento de Bentinho e Capitu nasce Ezequiel. Escobar morre e, durante seu enterro, Bentinho julga estranha a forma qual Capitu contempla o cadáver. A partir daí, os ciúmes vão aumentando e precipita-se a crise. À medida que cresce, Ezequiel se torna cada vez mais parecido com Escobar. Bentinho muito ciumento, chega a planejar o assassinato da esposa e do filho, seguido pelo seu suicídio, mas não tem coragem. A tragédia dilui-se na separação do casal.
Capitu viaja com o filho para a Europa, onde morre anos depois. Ezequiel, já moço, volta ao Brasil para visitar o pai, que apenas constata a semelhança entre e antigo colega de seminário. Ezequiel volta a viajar e morre no estrangeiro. Bentinho, cada vez mais fechado em suas dúvidas, passa a ser chamado de casmurro pelos amigos e vizinhos e põe-se a escrever de sua vida (o romance).



Em Dom Casmurro, encontramos a dúvida sobre a existência do adultério de Capitu, não havendo nenhum momento que o comprove, permanecendo apenas como suspeitas. Sendo escrito em primeira pessoa, apresenta apenas a interpretação dos fatos presenciados pelo narrador-personagem, não apresentando em nenhum momento outras visões. O fato de o autor escrever o romance em capítulos curtos, com títulos explicados posteriormente e de utilizar citações de obras importantes e personagens históricos, em frases curtas, facilita a leitura e prende o leitor.
Machado de Assis permite, ao deixar o final com uma questão em aberto, que um mesmo leitor retome o livro e tire diferentes conclusões a cada vez que o releia. Porém, a questão principal do livro não é essa. Machado escreve sobre a suposta traição para que o leitor se distraia, e só os mais atentos percebam que o assunto principal da obra é a análise social da sociedade burguesa brasileira do século XIX. Para isso, Machado trabalha um micro cosmo - Casa de D. Glória- para refletir sobre o macro cosmo - a sociedade. Assim, cada habitante da casa representa um tipo social da época.


Quando Bento vai mudar da casa de sua mãe, na Rua de Matacavalos, para a Praia da Glória, ele constrói uma casa idêntica aquela em que viveu desde criança, colocando inclusive quatro medalhões de quatro imperadores notórios na sala de estar: Nero, Augusto, Massinissa e César que, segundo Bento, o sugerem a escrita do romance.
Os imperadores possuem algo muito interessante em comum: acusaram suas mulheres de adultério e mataram-nas, mesmo sabendo que elas eram inocentes. César disse: " minha mulher não basta ser inocente, ela tem que parecer inocente". Isso nos dá mais uma pista sobre a suposta traição no romance.

"Até hoje é motivo de aceso debate se Capitu traiu ou não o marido com seu melhor amigo, Escobar. A questão, no fundo, é irrelevante, pois para entendermos o perfil psicológico de Bentinho, basta sabermos que ele acredita ter havido adultério.
Também é irrelevante se o fato que desencadeou o ciúme - a forma intensa com que Capitu fitava Escobar no velório deste, perturbando Bentinho a ponto de impedi-lo de pronunciar o discurso fúnebre – ocorreu na realidade ou apenas existiu na imaginação do personagem.
No despertar do ciúme, teve papel certamente preponderante o sentimento de culpa que carregava Bentinho por não cumprir a promessa de sua mãe, de tornar-se padre e daí o ressentimento inconsciente contra Escobar, que o ajudara a dissuadir a mãe de seu intento, permitindo seu casamento com Capitu.
A culpa e o ressentimento eram tão fortes que Bentinho esteve a ponto de suicidar-se. Não o fez e depois de ter perdido a mulher e humilhado a ela e ao filho, se tornou o Dom Casmurro do título."
( Ciúme na Literatura - Wikipédia )

Agora, aos comentários e observações pessoais sobre a leitura:

“E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
--Mas, Senhor...
--Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
--Ouvi agora alguns ensaios!
--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera... ”
(CAPÍTULO IX / A ÓPERA )

“Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta idéia a Capitu. "Sua Majestade pedindo, mamãe cede", pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança: "O Imperador entrou em casa de D. Glória! Que será? Que não será?" A nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando, --não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,--pedia a minha mãe que me não fizesse padre, -- e ela, lisonjeada e obediente, prometia que não.
--A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?
--Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..
--Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde aos outros, conhecer as moléstias. combatê-las, vencê-1as... A senhora mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
-- Mamãe querendo.
-- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de adeus, dizendo ainda: "A medicina, a nossa Escola." E o coche partia entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.


Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse para S. Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.”
( CAPÍTULO XXIX / O IMPERADOR e CAPÍTULO XXX / O SANTÍSSlMO )


“- Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitou, mas então com as mãos, e disse-lhe,--para dizer alguma cousa,--que era capaz de os pentear, se quisesse. ”
(CAPÍTULO XXXII / OLHOS DE RESSACA )

“Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico.”
(CAPÍTULO XIXI / O PENTEADO)
Aqui há uma singela intertextualidade com Lolita, de Nabokov. Singela, porém compensadora aos que já tiveram a oportunidade de conhecer o universo que este outro autor apaixonado pela beleza das ninfas nos deixou.
Alguém certo dia disse que as grandes obras só podem ser percebidas como tais quando passamos a perceber todos os seus detalhes minuciosos e por isso mesmo engrandecedores. Seja a intertextualidade, sejam referências simples, que passariam despercebidas aos menos atentos, depois de ler tal afirmação, passei a procurar com muito mais afinco detalhes que antes me passavam despercebidos. Tenho me disciplinado para reaprender a ler, ou pelo menos tentado. De qualquer forma, desde então, ler tornou-se para mim ainda mais gratificante.
“O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e, para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção. Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- não vivia com rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do penteado da manhã era um Brande passo no caminho da movimentação amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas; depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os meus esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de vontades, e Capitu, que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios. Agora sei que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou; mas então foi a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso, relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e bastaria um pouco mais... ”
(CAPÍTULO XXXVII / A ALMA É CHEIA DE MISTÉRIOS)

“A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente.”
(CAPÍTULO LXVI / INTIMIDADE )

“Perto de casa, havia um barbeiro, que me conhecia de vista, amava a rebeca e não tocava inteiramente mal. Na ocasião em que ia passando, executava não sei que peça. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado), ele viu-me, e continuou a tocar. Não atendeu a um freguês, e logo a outro, que ali foram, a despeito da hora e de ser domingo, confiar-lhe as caras à navalha. Perdeu-os sem perder uma nota- ia tocando para mim. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja, voltado para ele. Ao fundo, levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa, vi apontar uma moça trigueira, vestido claro, flor no cabelo. Era a mulher dele, creio que me descobriu de dentro, e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. Se me não engano, chegou a dizê-lo com os olhos. Quanto ao marido, tocava agora com mais calor; sem ver a mulher, sem ver fregueses, grudava a face ao instrumento, passava a alma ao arco, e tocava, tocava...
Divina arte! Ia-se formando um grupo, deixei a porta da loja e vim andando para casa; enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro, ou por estar ligado a um momento grave da minha vida, ou por esta máxima, que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite, que eram o pão do dia seguinte, tudo para ser ouvido de um transeunte. Supõe agora que este, em vez de ir-se embora, como eu fui, ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher, então é que ele, todo arco, todo rebeca, tocaria desesperadamente. Divina arte! ”
( CAPÍTULO CXXVII / O BARBEIRO )

Outra intertextualidade interessante foi percebida entre o capítulo que Machado de Assis chama de O Barbeiro e o conto O Moço do Saxofone, de Lygia Fagundes Teles. Em ambos os textos a atitude aparentemente passiva e até mesmo comovente do homem enganado pela mulher nos salta aos olhos e nos faz pensar sobre a traição.

'Dica' final do livro:
“Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.”
(CAPÍTULO CXLVIII / E BEM, E O RESTO? )

A Rede Globo produziu uma adaptação tosca, porém muito comercial de Dom Casmurro. O resultado ficou estranho, e provavelmente os espectadores que não sabem quem foi Machado de Assis não entenderam nada da história.
Porém, na minha opinião, a principal falha da microssérie Capitu é a falta da ambiguidade do texto machadiano. Assistindo somente à versão da Globo deduz que Capitu traiu e pronto, há uma parcialidade e uma presunção desagradáveis. Todo o mistério instigante da obra é deixado de lado, o que deixa grande parte da grandiosidade da obra oculto.